Reflexão sobre o mercado da moda pós-crises. Part.II – 1° parada: A moda após a Segunda República na França

Vamos continuar nosso assunto sobre “Reflexão sobre o mercado da Moda pós-crises. A Parte I dessa Reflexão, você encontra AQUI!

Como lhes precisei anteriormente as minhas aulas de história são mais frescas na minha mente à partir da Revolução Francesa, contudo me permitirei voltar no tempo para precisar que no século XVII os costureiros na França tinham um status muito modesto, servindo apenas de auxiliares dos alfaiates. 

A moda das cortes eram um tanto tradicionais e só evoluem quando um príncipe se casava com uma princesa provinda de uma outra cultura trazendo assim com ela as suas peripécias. Com a chegada da II República no meado do século XIX que traz com ela Charles Frederic Worth que terá o prazer de enfrentar certas tradições, e desestruturar os códigos do vestuário da época.

Recém chegado de Londres com a mente cheia de Ideias e novos paradigmas, o jovem consegue um trabalho no armarinho de luxo de Gagelin, que de início contrariado, termina por o transforma em um atelier que propõem vestidos simples e clássico fugindo da exageração da época, seguindo as sugestões de Worth.

A fim de facilitar a projeção das suas clientes eles contam com a ajuda de uma “senhora de loja” para “desfilar” as roupas para as damas da sociedade, facilitando assim a identificação das clientes nos seus vestidos.

O novo conceito encontra sucesso sendo reproduzido em grandes exposições universais e salons parisienses nascendo assim a “criação de moda”.  

Worth se torna um costureiro de renome ao ponto que a Imperatriz Eugénie, então esposa de Napoleão III (sobrinho do imperador Napoleão I), requisita os seus serviços como costureiro permitindo assim que uma pessoa externa a corte influencie os seus códigos vestimentas. Chegado o tão prestigiado dia em que Worth poderia enfim propor os seus vestidos a monarquia a sua audácia natural o fez propor um vestido já pronto, o que não é nada visto com bons olhos pela imperatriz.

Contudo Worth que logo compreende o poder das roupas à transmitirem mensagens subliminares, se dirige à Napoleão ressaltando a origem Lyonesa do tecido que compõem o vestido proposto, precisando que ele com certeza agradaria os “canuts lyoneses” ao ver a sua indústria sendo promovida pelo seu monarca.

Capitalizando rapidamente os seus interesses políticos, Napoleão III se dirige à Eugénie e a declara “Senhora, tenha a gentileza de vestir esse vestido 1 ou 2 vezes por favor ?” A partir desse momento Worth se tornará costureiro oficial de Eugénie para as suas vestimentas de noites e eventos oficiais.

 O trabalho de Worth colhe seus frutos e a influência de Paris no que se refere ao vestuário chega ao seu apogeu levando-o a ser conhecido internacionalmente se tornando o costureiro de diversas imperatrizes e rainhas pela europa. Após a queda do sistema monárquico a oligarquia toma o poder e a burguesia poderá aceder aos códigos vestimentas que antes eram reservado aos monarcas vindo assim a ser denominada como “la haute couture”.

Dando um salto no tempo iremos para o início do século XX onde critérios foram criados com a finalidade de impedir que o estatuto “haute couture” seja aberto a qualquer um. Sendo assim um sindicato é criado para definir quais critérios e quais marcas poderiam obter o label .

A essa altura a costura representa 15% das exportações globais da França ocupando assim o 2° lugar referente às exportações mundiais.

Para que possamos ter um exemplo da grandiosidade da oferta, à “maison” à Paris Jean-Patou criada em 1914 tornando-se uma das mais renomadas da sua época, empregava 100 vendedoras, obtinha 30 cabines de provas e produzia 400 modelos que seriam desenvolvidos sob medida, com desfiles que iniciavam na parte da manhã e terminavam somente durante a noite. 

Contudo a primeira guerra se inicia (1914 à 1918) e as pessoas se confinam pensando somente em como sobreviver, e não em se vestir segundo as últimas tendência parisienses. Para que possamos ter uma ideia dos impactos ocasionados no mercado de trabalho durante essas duas guerras, em 1931 (13 anos após a primeira guerra mundial) foram contabilizados 1266 desempregados na área da moda e 5 anos mais tarde o número era quase 10 vezes maior. 

Sendo assim estava decretado o fim dos tempos em que se desenvolvia centenas de modelos com desfiles que eram repetidos até 1500 vezes nas lojas mais bem situadas de Paris. Para sobreviverem os confeccionadores se viam na obrigação de venderem seus modelos não vendidos a várias lojas do mundo lhes dando o direito de reprodução em grande escala. E assim nasce a premissa do que virá a ser o prêt-à-porté alguns anos mais tarde.

Em época de guerra o racionamento é praticado, limitando através de tickets a quantidade de alimentos que podiam ser consumidos por ser humano. O mesmo tipo de racionamento foi aplicado para o mercado da moda, contudo a “haute couture” obtém uma derrogação podendo assim adquirir tecidos sem limites de tickets.  

Para que uma “maison” pudesse ser designada como “haute couture” se define que ela deve obter no mínimo 20 operários, 3 manequins de cabine e 45 desfiles por ano, transformando assim os desfiles num evento mítico na moda.   

O racionamento que dura assim um longo período mesmo alguns anos após a segunda guerra, leva boa parte dos costureiros parisienses de renome a criarem os primeiros contratos de licença, assinando acordos de concessão de marca com os Estados Unidos. Esse tipo de contrato que será reservado somente para as “Maisons de haute couture” permite que as “maisons” possam delegar toda a sua produção industrial e distribuição dos seus modelos em larga escala à empresas externas, faturando somente os modelos feitos “sur mesure” que caracteriza “la haute couture”. 

Com a globalização que é definida como o conjunto de processos que contribuem para a conexão de sociedades e indivíduos em todo o mundo, durante os anos 60 esse tipo de produção se torna a norma e as “Maisons”, as maiores exportadores da moda.

Dessa forma o label “haute couture” se desvaloriza reduzindo assim pela metade o número de “maisons” que conseguem sobreviver à esse novo modelo de business que deixam de prestar serviços de costura para se concentrar somente na venda de produtos.  

Após esse conglomerado de informações que se diluíram entre os séculos XVII até o XX vamos nos preparar a não mais viajarmos pelo tempo mais sim através de 3 personalidades que materializaram através da moda, o comportamento da sociedade em que viveram:

Chanel

Gabrielle Chanel ou simplesmente Coco para os íntimos liberou as mulheres de muitos artefatos inúteis, mas antes disso ela se liberou a si mesma.  Órfã sem referência se viu na necessidade de criar por si mesma as suas, livre de seus relacionamentos e caminhos profissionais Gabrielle era captadora das tendências sociais feministas. 

Após a primeira guerra mundial que levou com sigo tanto homens quanto recursos, Chanel opta por modelos simples e elegantes liberando as mulheres dos seus espartilhos, diminuindo o comprimento das suas saias, cabelos, permitindo jóias falsas serem desmistificadas, liberando os movimentos mesmo que para isso fosse necessário utilizar tecidos elásticos até então destinados a roupas íntimas.

E nas suas coleções a praticidade é quem faz as leis, se aproximando assim, de códigos até então Yang, dando lugar ao masculino, inspirando-se nessas forças que gravitam à sua existência. Ou seja não resta lugares para os excessos, a procura pelo essencial se torna indispensável e o pretinho básico atemporal se vê harmonioso e elegante. 

Com Etienne Balsan, um entusiasta do hipismo ela pode observar a importância das roupas serem tão confortáveis quanto úteis e as constata através do seu aprendizado como cavaleira. Após essa experiência ela tem a oportunidade de valorizar a liberdade em detrimento das aparências. 

Boy Capel o homem da sua vida lhe transmite o seu amor pela poesia, literatura e simbolismo aguçando assim a sua intuição que a guiara na identificação da necessidade feminista de uma parte da sociedade. 

O grande duque da Rússia Dmitri Pavlovich expatriado à Paris, atrai a sua atenção para os perfumes colocando em evidência os acordos de couro, até então vistos como masculinos. 

E outros homens como Igor Stravinsky, Pablo Picasso, Diaghilev, Jean Cocteau, Salvador Dali e Pierre Reverdy deixam marcas na então Gabrielle que através da sua natureza curiosa propicia a ativar a sua imaginação, vê uma mina de conhecimentos até então reservada ao sexo oposto, à serem compartilhados com o gênero feminino, através da moda. 

Combate e Chanel se tornaram sinônimos. No quartel de Moulins, ela tem a sua primeira experiência como costureira, vindo a se inspirar num futuro próximo da praticidade desses uniformes no design dos seus modelos.  

Durante o período de grande recessão Channel se retira da cena da moda e vive exclusivamente das vendas do seu perfume, e retorna mais de 10 anos apos a 2° guerra mundial propondo seu terninho que será adotado por celebridades americanas muito conhecidas na época tal como Marlene Dietrich, Elizabeth Taylor, Jane Fonda, Jean Seberg e até mesmo Jackie Kennedy que seleciona o look Chanel para os seus eventos oficiais.

Ela cria assim “Chanel silhouettes” ou seja silhuetas que respondiam os códigos Chanel para mulheres fortes que se harmonizam tão bem com o sinônimo masculino: independente. 

Dior

O criador do New Look deu não só pano para as mangas mas sim para os seus vestidos como um todo. Um ano após o final da segunda guerra Dior o antigo modelista de Lucien Lelong decide voar com as suas próprias asas e abrir a sua “Maison de couture”.

A transição se faz entre a conclusão da antiga colecção de Lucien e dos seus novos looks provando assim a sua paixão pelo o que faz.     

E mesmo diante das restrições de alimentos e matérias primas como o tecido entre outros insumos necessários a concepção de roupas, Dior um desconhecido, chega na “haute couture” sem se render a limitações apresentada pelo “deserto pós guerra” e concebe vestidos que necessitam de 30 metros , ainda que seja acusado de desperdício.

Diante de uma época crítica para a economia Francesa pouco propícia a criação de novas empresas, Dior cria a sua primeira coleção intitulada Corolle  pela qual compreendemos melhor o seu significado através da sua descrição “ Eu desenhava mulheres flores, ombros doces, busto em flor e saias largas como Carolle”.

Uma coleção que será um sucesso se intitulando com o nome de uma flor, materializando assim a sua paixão pelos jardins. Ela louva a feminilidade unindo na mesma diversos códigos reservados ao universo feminino e ao luxo guardando a tão antiga função da mulher através da moda de distinguir visualmente a classe social do marido que a veste.

Através de Dior as suas clientes podem vendar seus olhos diante de toda a miséria e escassez que as rodeiam as convidando a abrirem a janela e deixarem o sol entrar, evaporando assim seu sentimento de culpa diante daqueles pela qual a guerra se mostrou mais inflexível. 

Seu estilo passa a ser vestidos pelas vedetes mais célebres de Hollywood da época contribuindo para o seu sucesso internacional, que o leva a liderar uma primeira forma de licenciamento dos seus modelos dando a oportunidade de reproduzi-los nos Estados Unidos.

Mais alguns anos depois do “new look” ele passa à “feijão verde” segundo os jornalista confeccionando modelos que desejam “emagrecer” as suas clientes as dando uma aparência austera e menos abundante contudo mais condizente com a época. 

Por conta do seu estado de saúde crítico, Dior se vê na obrigação de se afastar das suas atividades confiando a responsabilidade da criação, ao prodígio Yves Saint Laurent.

Do seu terceiro ataque cardíaco Dior se apaga confiando todavia aos diversos estilistas que precederam  o seu legado e a responsabilidade de fazer com que a mulher sinta-se livre de expor a suas escolhas mesmo que essas não se harmonizam tão bem com o sinônimo liberdade e esta tudo bem.     

Yves Saint Laurent

O jovem Yves é o fruto de um bom e de um mau ambiente tendo em mente que o bem e o mau são opostos que se completam e que depende dos olhos de quem o vê. Sua missão foi vista por ele mesmo como a de “tranquilizar e proporcionar às mulheres, confiança nelas mesmas.

Esse homem que através de uma feminilidade acentuada soube compreender melhor que tantos outros o que parte de nós queríamos num determinado momento da nossa existência: independência. 

E se independência combina tanto com liberdade é entre terninhos, smoking, caban e trench coat que o fruto de uma família favorecida pelo qual o seu dever é de dar a oportunidade à Saint Laurant de cumprir a difícil responsabilidade de suceder nada menos que Dior.

Mas o que tem de revolucionário criar roupas para mulheres inspirados no vestuário masculino? O desafio de se comparar ao que se caracteriza como incomparável.

Para que possamos criar o nosso próprio rumo precisamos ser capaz de chegar até o caminho que precede a ele, não?

Sendo assim nada mais original que mostramos o quanto feminina é possível ser vestida com trajes masculinos desafiando os gêneros indo ao encontro do andrógino. 

Além de trajes masculinos Yves, soube transportar a arte tradicionalmente em 2D para sua nova versão em 3D através da moda materializando-as por meio dos vestidos Mondrian. Curtos na altura do joelho e retos inspirado nas obras abstratas do holandês Piet Mondrian a moda nos convida a admirarmos mais uma vez o quanto ela é capaz de veicular mensagens. 

E para compôr tamanha transgressão, que necessita de tempo para ser aceitada nada melhor que o uso de acessórios para se diversificar. Pois em uma só “journée” nós temos o dia e a noite, sendo assim Laurent percebe a necessidade de conceber um vestuário que possa ser usado para duas ocasiões, e até mesmo para diferentes outras.

Uma vez que a mulher deseja assumir a sua liberdade, ele enfim encontra meios que a permita através da moda, de se completar tanto no âmbito profissional que pessoal se servido da sua independência para agradar tanto a homens quanto mulheres. 

E esta foi a segunda parte desse conteúdo incrível da Reflexão sobre o mercado da Moda pós-crises.

Para ouvir esse post, acesse nosso Canal no Spotify ou clique no player a baixo.

Comment

Leave a Reply

Previous Post
Reflexão sobre o mercado da moda pós-crises . Part.I
Read More
Next Post
Reflexão sobre o mercado da moda pós-crises. Part.III– Modificações na concepção do vestuário pós período de crise
Read More
SELECIONE SUA MOEDA
R$Real brasileiro
Euro
×

Oie!

Clique para falar com a Gaby ou envie um e-mail para  gabriellavieira@dressmekindly.com

 

×